06/10/2008

as coisinhas dos anos.

Família tem uma facilidade abominável de se livrar das lembranças materiais por culpa do asseio e das lembranças espirituais. Se for grande o suficiente para acumular pó, vai embora para facilitar a limpeza da casa. Se for pequeno demais para incomodar a limpeza, vai embora para que libere espaço para coisa maior, que também será eventualmente eliminada, na semana seguinte ou noutra.

O ser humano dos tempos modernos é muito poeta, sem perceber ou sem mesmo querer. Abelhinha irritante! Despreza a funcionalidade de uma agenda, mesmo das mais simples, como escrever na mão para lembrar-se do aniversário da filha, ou amarrar um lenço no tornozelo, para lembrar de levar o cachorro para passear.

O ser humano é computadorizado. Culpa a memória por ser uma vadia desalmada, mas não faz questão alguma de preservá-la adequadamente. Não faz questão de condicioná-la à pressa do dia, ao corre-corre da selva, não faz questão de marcá-la em pedra para que se eternize.

Sempre cultivei grande paixão pelas coisinhas dos anos. Aquela embalagem do chocolate, aquele envelope da carta de amor, aquele selo da correspondência recebida, aquela florzinha sintética do perfume gostoso. Todas essas quinquilharias me passam segurança, pois eu, como o esquecido que sou, tenho facilidade assustadora de esquecer-me dessa vida sem um apoio devido.

3 comentaram:

Alice disse...

Me identifiquei muito com esse desabafo teu, talvez porque eu tenha uma péssima memória, talvez porque eu não goste de guardar essas "coisinhas dos anos" (que eu chamo carinhosamente de tranqueiras). Pensando bem, acho que a cada semana eu jogo fora mais uma parte de meu passado. Quem sabe não seja bom que eu tente adquirir novos hábitos. Ou não.

Lua disse...

Hmm...Já eu considero que tenho memória até demais,bonito!

Uma prova? Outro déjà vu de vossa parte! =)

issamu disse...

Eu penso igual e guardo as coisas pensando que podem me ser úteis no futuro. Só que no final acabo jogando tudo fora pois vejo que é puro lixo!